RESENHA

Pesquisa Social: teoria, método e criatividade

Vera Lucia Martiniak

MINAYO, M. C. S. ( Org ); DESLANDES, S.F.; CRUZ NETO, O . GOMES, R. Pesquisa Social: teoria, método e criatividade. Petrópolis, RJ: Vozes, 1994.

 

A obra, aqui comentada, traz as contribuições de quatros autores sobre o percurso da investigação social e da pesquisa qualitativa.

No primeiro capítulo, basicamente teórico, Maria Cecília de Souza Minayo nos coloca o embate sobre a cientificidade das ciências sociais em relação as ciências da natureza. A interrogação em torno da cientificidade das ciências sociais se desdobra em várias questões: o tratamento de uma realidade da qual somos agentes, a busca pela objetivação descaracteriza a subjetividade e por último, que método geral trataria de uma realidade marcada pela especificidade e pela diferenciação.

Outro aspecto das Ciências Sociais é o fato de que ela é intrínseca e extrinsecamente ideológica, pois a ciência veicula interesses e visões de mundo historicamente construído, e seu objeto é essencialmente qualitativo, na medida em que a realidade social é mais rica que qualquer teoria, pensamento e discurso que possamos elaborar sobre ela. Desta forma, a autora destaca a metodologia como o caminho do pensamento e a prática exercida sobre a realidade, porém, nada substitui a criatividade do pesquisador.

Toda investigação se inicia por um problema, articulados a conhecimentos anteriores, denominado de teoria. Portanto a teoria é um conhecimento que nos servimos no processo de investigação com um sistema organizado de proposições, que orientam a obtenção de dados, na análise e de conceitos que veiculam seu sentido. Na utilização de um conjunto de proposições relacionados, a teoria busca uma ordem e uma tentativa de ser compreendida pelos membros de uma comunidade que seguem o mesmo caminho de reflexão e ação.

A autora também faz uma diferenciação entre a pesquisa qualitativa e a quantitativa. A primeira se preocupa com um nível de realidade que não pode ser quantificado ou reduzidos á operacionalizações de variáveis, a outra, se opõem a esta na utilização dos termos do tipo matemático para a compreensão da realidade.

No segundo capítulo, Suely Deslandes nos coloca as várias fases da construção do projeto. Ao elaborarmos um projeto científico estamos trabalhando com pelo menos três dimensões que são interligadas: a dimensão técnica, a dimensão ideológica e a dimensão científica. Neste capítulo é dada a ênfase á dimensão técnica, pois viabiliza o acesso ao conhecimento. O projeto também é utilizado para o pesquisador comunicar seus propósitos de pesquisa para sejam aceitos na comunidade científica e para obter financiamentos.

A autora apresenta os elementos constitutivos de um projeto de pesquisa. Iniciando pelo tema da pesquisa que indica uma área de interesse a ser investigada e a formulação de perguntas ao tema proposto constituindo-se na problematização. O segundo elemento diz respeito a definição da base teórica e conceitual, sendo imprescindível a definição clara dos pressupostos teóricos das categorias e conceitos a serem utilizados. O terceiro elemento é a formulação de hipóteses, como tentativa de criar indagações a serem verificadas na investigação. A justificativa, descreve os motivos da realização da pesquisa, contribuições, intervenção ou solução para o problema.

O quinto elemento trata dos objetivos, buscando responder ao que se pretende na pesquisa, que metas almeja-se alcançar ao término da investigação, e a metodologia, como a definição de instrumentos e procedimentos para a análise dos dados.

O cronograma é utilizado para traçar o tempo necessário para a realização de cada uma das etapas propostas. Em seguida, encontramos as referências bibliográficas e para finalizar os anexos.

No terceiro capítulo, Otávio Cruz Neto, nos coloca que após definirmos o projeto, devemos selecionar as formas para investigar esse objeto. Destaca a entrevista e a observação participante como componentes importantes da pesquisa qualitativa. Também traz algumas pistas para que sejam observadas durante a aplicação destas técnicas.

No capítulo final, Romeu Gomes, chama a atenção para os dados insuficientes, dificultando o estabelecimento de conclusões. Quando o projeto de pesquisa é estruturado ou os problemas mencionados são resolvidos, poderemos iniciar a fase de análise e interpretação dos dados. Mas para que esta análise seja eficiente, temos que estar atentos para não se iludir com aquilo que se apresenta aos nossos olhos. Outro aspecto importante refere ao fato do pesquisador não esquecer os significados presentes em seus dados e a dificuldade em articular as conclusões que surgem dos dados concretos com conhecimentos mais amplos ou mais abstratos.

As orientações presentes nesta obra auxiliam os iniciantes em pesquisa científica, a ampliarem seu conhecimento no mundo da investigação social e da pesquisa qualitativa. Para compreendermos o significado da pesquisa é necessário considerarmos as duas tônicas: a parte teórica e a parte técnica. Nesse sentido os autores expõem de uma forma clara e compreensível os conceitos básicos da pesquisa social.

O livro é bastante prático, sem no entanto, ignorar aspectos mais teóricos, abordados na primeira parte. Na segunda parte os autores orientam a elaboração da pesquisa, desde a escolha do tema, a metodologia, até a análise dos dados. Desta forma esta obra se apresenta como um norteador para a elaboração de um projeto que atenda as necessidades do pesquisador na sondagem da realidade.