Trajetória Familiar e Escolar dos Trabalhadores Diretos e Terceirizados de uma Fábrica de Grande Automação[1]

Marcelo José Araújo[2]

 

RESUMO

Decorridos três séculos de predomínio da sociedade industrial, o trabalho passa a assumir, nas últimas décadas, uma postura crescentemente intelectual, em contraposição ao conceito de trabalho físico-manual presente em quase todo século XX, onde a maior expressão de sistema organizativo presente era o modelo taylorista-fordista.

Como sistema de organização do trabalho, especialmente industrial, o modelo taylorista-fordista baseava-se na separação das funções de concepção e planejamento.

Em termos de educação, os trabalhadores do século XIX e XX eram moldados, tanto em conhecimento, como em atitudes, para atuarem numa estrita função do posto de trabalho. Sua educação, mesmo básica, já vinha demarcada sob a idéia de treinamento e adestramento devendo cumprir rigorosamente todas as normas operatórias.

Hoje, entretanto, assistimos a produção capitalista adquirir impulso com base nas novas tecnologias, na criação de novos produtos, na mundialização dos mercados etc., onde as exigências do mercado mundial passam a necessitar da flexibilização do processo de trabalho combinado à produtividade, a capacidade de inovação e a competitividade, obrigando as empresas a passarem por uma reestruturação produtiva que envolva inovações tecnológicas e organizacionais no âmbito da produção.

As inovações tecnológicas se caracterizam na utilização da microeletrônica, pois as máquinas que se utilizam desta base técnica são programáveis permitindo rápidas adaptações às flutuações do mercado. As inovações organizacionais, por sua vez, se caracterizam na nova organização do trabalho com base nas técnicas do “modelo japonês” de produção. Este “modelo japonês”, também conhecido como toyotismo ou ohnoismo, opera com os seguintes sistemas: o Just in Time, o Kaisen, a Manutenção Produtiva Total, o Kanban, os Círculos de Controle da Qualidade e o Controle de Qualidade Total.

O fato é que as transformações por que vem passando o mundo do trabalho nas duas últimas décadas do século XX, estão exigindo “novos” e maiores requisitos comportamentais, incluindo virtudes pessoais para que o trabalhador possa ingressar ou manter-se num contexto de acirrada concorrência. Os atributos necessários à indústria hoje vão além da mera escolaridade formal, assim, atitudes como interesse, motivação, criatividade e iniciativa, adquirem mais peso do que o conhecimento.

O trabalhador, atualmente, não precisa estar apenas qualificado para o trabalho em si, mas para a vida como um todo, deve ter aptidão suficiente para enfrentar o emprego e o desemprego. Para circular com desenvoltura em meio aos avanços da tecnologia, deve, ainda, entender e saber usar as máquinas modernas que têm apresentado inúmeras conseqüências na vida pessoal e social.

Para compreender as condições fabris do século XXI é indispensável reconhecer que o mundo do trabalho adquiriu dimensões propriamente globais, deixando de ser apenas o espaço da fábrica, o espaço produtivo da economia nacional, transformando-se em espaço principalmente global.

 

É neste contexto de mudanças no trabalho que se justificou o interesse em desenvolver esta pesquisa. Sabemos que a tecnologia é benéfica para o homem ao libertá-lo do trabalho físico pesado, no entanto, quando usada a serviço do capitalismo torna-se excludente.

Desta forma, consideramos fundamental analisar como ocorre e como ocorreu a formação dos trabalhadores de uma indústria automatizada da cidade de São Carlos - SP dando ênfase ao processo de escolarização e qualificação dos trabalhadores e dos postos de trabalho, identificando também a trajetória de vida, principalmente escolar, dos pais e avós deste trabalhador, abordando com isto três gerações: avós, pais e o próprio trabalhador.

Analisamos, assim, as relações entre o sistema produtivo, familiar e escolar, tendo como foco as conexões que se configuram na chamada qualificação do trabalhador.

 

Na verdade, este trabalho teve como objetivo estudar a conexão entre formação escolar, familiar e atividades produtivas buscando compreender suas particularidades por meio do perfil de vida familiar e escolar dos trabalhadores que integram esta indústria automatizada da cidade de São Carlos – SP. Pois, julgamos fundamental analisar as relações entre o sistema produtivo, familiar e escolar, tendo como foco as conexões que se configuram na chamada qualificação do trabalhador. Desta forma, procuramos:

·         Entender como ocorre, nesta indústria, a relação entre o grau de escolaridade e o posto de trabalho;

·         Analisar quais os requerimentos qualificacionais da indústria;

·          Verificar que tipo de relação existe entre o trabalhador direto e o terceirizado.

 

No que diz respeito ao âmbito e estruturação da pesquisa, julgamos necessário, primeiramente, identificar as características da cidade de São Carlos, local onde se encontra a indústria em questão, descrevendo sua história desde a fundação até os dias atuais, enfatizando, principalmente, a educação e o processo de industrialização (Capítulo I) e, conseqüentemente, o histórico desta indústria (Capítulo II), concluindo, assim, a primeira parte do trabalho.

Procuramos, desta forma, proporcionar ao leitor uma compreensão melhor do que estamos tratando.

Na segunda parte, abordamos o Referencial Teórico, que estruturou-se da seguinte forma:

Primeiramente, explanamos sobre o surgimento da divisão das várias etapas do processo de trabalho em tarefas fragmentadas e, como conseqüência, a introdução das fábricas e das maquinarias. Depois, o surgimento e desenvolvimento do taylorismo como sistematização dos princípios de racionalização produtivista do trabalho. Em seguida, o surgimento e desenvolvimento do fordismo como estratégia mais abrangente de organização da produção. Na seqüência, o surgimento de um novo modo de regulamentação social, político e econômico configurado no chamado “Estado de bem-estar social” (keynesianismo) que surgiu para resolver o quase colapso do capitalismo na década de 1930. Seqüentemente, a crise deste modelo (keynesiano) nos anos 1970 e a reação do capitalismo que passa á ofensiva dando início à acumulação flexível fundamentada na concepção neoliberal. Posteriormente, no final do século XX, pautado na ideologia neoliberal, o surgimento do processo denominado globalização, onde a produção capitalista adquiri novos impulsos com base nas novas tecnologias, na criação de novos produtos, na recriação da divisão internacional do trabalho e na mundialização dos mercados, obrigando as empresas capitalistas a iniciarem um processo de reestruturação produtiva que envolve inovações tecnológicas e organizacionais no âmbito da produção. Em seguida, ressaltamos a necessidade da formação escolar deste “novo” tipo de trabalhador e, finalmente, as transformações do mercado de trabalho que culminou na “terceirização” dos serviços e na informalidade dos empregos onde a questão do desemprego deixa de ser acidental e passa a ser estrutural.

Portanto, procuramos construir uma linha histórica que explicasse, em breves palavras, a evolução do trabalho desde a subordinação humana ao capital até o surgimento do “novo” tipo de trabalhador necessário para atuar na atual fábrica. Em seguida, fizemos uma crítica mais acentuada sobre essas mudanças que passou o capitalismo e, conseqüentemente, o trabalho.

Na terceira parte, fizemos a descrição e a análise dos resultados da pesquisa de campo, concluindo com um texto analítico (Capítulo III). Posteriormente, fizemos a apresentação dos entrevistados com excertos da entrevistas, também concluindo com um texto analítico (Capítulo IV).

Na quarta e última parte do trabalho, que diz respeito à problematização da pesquisa, tentamos, por meio das observações dos resultados dos questionários e das entrevistas, caracterizar e analisar os problemas mais fundamentais levantados a partir das mudanças processadas no mundo do trabalho nas últimas décadas do século XX. Cada um dos problemas foi abordado em dois níveis: caracterização e tentativa de análise (Capítulo V).

Por fim, elaboramos uma Conclusão, que procurou sintetizar as principais observações deste trabalho.



[1]Dissertação orientada pelo Prof. Dr. Paolo Nosella, na Universidade Federal de São Carlos, em 2002.

[2] Doutorando em Fundamentos da Educação na UFSCAr.